Prof. Dílson Catarino - Estrutura e formação das palavras
Estudar a estrutura das palavras é estudar os elementos que formam a palavra, denominados de morfemas. São os seguintes os morfemas da Língua Portuguesa.
1) Radical: O que contém o sentido básico do vocábulo. Aquilo que permanecer intacto quando a palavra for modificada. Também é chamado de lexema, semantema ou morfema lexical.
– falar: falei, falava, falarei – O radical é fal.
– menino: menina, meninice, menininho – O radical é menin.
Evitamos o termo raiz, uma vez que sua identificação depende de conhecimentos da etimologia de cada palavra.
2) Vogal Temática:
A- Nos verbos, são as vogais A, E e I, presentes à terminação verbal. Elas indicam a que conjugação o verbo pertence:
– 1ª conjugação = Verbos terminados em AR.
– 2ª conjugação = Verbos terminados em ER.
– 3ª conjugação = Verbos terminados em IR.
Obs.: O verbo pôr e seus derivados pertence à 2ª conjugação, já que proveio do antigo verbo poer.
B- Nos substantivos e adjetivos, são as vogais A, E, I, O e U, no final da palavra, evitando que ela termine em consoante que não sejam l, m, n, r, s, x, z.
* Cuidado para não confundir vogal temática de substantivo e adjetivo com desinência nominal de gênero, que estudaremos mais à frente.
3) Tema:
É a junção do radical com a vogal temática. Se não existir a vogal temática, o tema e o radical serão o mesmo elemento; o mesmo acontecerá, quando o radical for terminado em vogal. Por exemplo, em se tratando de verbo, o tema sempre será a soma do radical com a vogal temática – estuda, come, parti; em se tratando de substantivos e de adjetivos, nem sempre isso acontecerá.
No substantivo pasta, past é o radical, a, a vogal temática, e pasta o tema; já na palavra leal, o radical e o tema são o mesmo elemento – leal, pois não há vogal temática; e na palavra tatu também, mas agora, porque o radical não é tat, e sim tatu mesmo.
4) Desinências:
É a terminação das palavras variáveis, posposta ao radical, com o intuito de modificá-las. Modificamos os verbos, conjugando-os; modificamos os substantivos, os adjetivos, os numerais e os pronomes em gênero e número. Existem dois tipos de desinências:
A- Desinências verbais:
Modo-temporais = indicam o tempo e o modo. São cinco as desinências modo-temporais:
-va- e -ia-, para o pretérito imperfeito do indicativo = estudava, vendia, partia
-ra- (átono), para o pretérito mais-que-perfeito do indicativo = estudara, vendera, partira
-ria-, para o futuro do pretérito do indicativo = estudaria, venderia, partiria
-rei- e -rá- (tônico), para o futuro do presente do indicativo = estudarei, venderei, partirei, estudará, venderá, partirá
-sse-, para o pretérito imperfeito do subjuntivo = estudasse, vendesse, partisse
Como são tempos primitivos, o pretérito perfeito e o presente do indicativo não possuem desinência modo-temporal, apenas desinência número-pessoal. A DMT só existe nos tempos derivados.
Número-pessoais = indicam a pessoa e o número. São três os grupos das desinências número-pessoais.
Grupo I: i, ste, u, mos, stes, ram, para o pretérito perfeito do indicativo = eu cantei, tu cantaste, ele cantou, nós cantamos, vós cantastes, eles cantaram.
Grupo II: Ø, es, Ø, mos, des, em, para o infinitivo flexionado e para o futuro do subjuntivo =
Infinitivo pessoal: Era para eu cantar, tu cantares, ele cantar, nós cantarmos, vós cantardes, eles cantarem.
Futuro do subjuntivo: Quando eu puser, tu puseres, ele puser, nós pusermos, vós puserdes, eles puserem.
Grupo III: Ø, s, Ø, mos, is, m, para todos os outros tempos = eu canto, tu cantas, ele canta, nós cantamos, vós cantais, eles cantam.
B- Desinências nominais:
de gênero = indica o gênero da palavra.
A palavra terá desinência nominal de gênero quando houver a oposição masculino – feminino.
cabeleireiro – cabeleireira.
Não confunda com vogal temática nominal. Exemplo: médico - o: desinência nominal de gênero - admite flexão para o feminino: médica / livro - o: vogal temática nominal - não admite flexão masculino x feminino
A vogal a será desinência nominal de gênero sempre que indicar o feminino de uma palavra, mesmo que o masculino não seja terminado em o. Por exemplo: crua, ela, traidora.
de número = indica o plural da palavra. É a letra s, somente quando indicar o plural da palavra.
cadeiras, pedras, águas.
Já em lápis, pires e ônibus, não há desinência nominal de número, pois não há a indicação de plural. A desinência de número no singular é a ausência do S.
5) Afixos: São elementos que se juntam a radicais para formar novas palavras. São eles:
A- Prefixo: É o afixo que aparece antes do radical.
– destampar, incapaz, amoral.
B- Sufixo: É o afixo que aparece depois do radical, do tema ou do infinitivo.
– pensamento, acusação, felizmente.
6) Vogais e consoantes de ligação: São vogais e consoantes que surgem entre dois morfemas, para tornar mais fácil e agradável a pronúncia de certas palavras.
– paulada, cafezal, gasômetro, cafeicultura.
Para analisar a formação de uma palavra, deve-se procurar a origem dela. Caso seja formada por apenas um radical, diz-se que foi formada por derivação; por dois ou mais radicais, composição. São os seguintes os processos de formação de palavras:
Derivação
Formação de novas palavras a partir de apenas um radical.
Derivação Prefixal:
Acréscimo de um prefixo (anterior ao radical) à palavra primitiva; também chamado de prefixação. Por exemplo:
antepasto, em que o prefixo ante– foi acrescido ao vocábulo pasto, cujo significado pode ser qualquer tipo de alimento, comida; antepasto, portanto, significa antes da comida.
reescrever, em que o prefixo re– foi acrescido ao vocábulo escrever. Não há hífen nesse vocábulo por o prefixo re- ser uma exceção: nunca haverá hífen diante dos prefixos co-, re-, pro- (som fechado), pre- (som fechado), trans-, an-, des-, in-.
inábil, em que o prefixo in– foi acrescido ao vocábulo hábil.
coerdeiro, em que o prefixo co- foi acrescido ao vocábulo herdeiro. Não há hífen nesse vocábulo por o prefixo co- ser uma exceção: nunca haverá hífen diante dos prefixos co-, re-, pro- (som fechado), pre- (som fechado), trans-, an-, des-, in-.
Derivação Sufixal:
Acréscimo de um sufixo (posterior ao radical) à palavra primitiva; também chamado de sufixação. Por exemplo:
felizmente, em que o sufixo -mente foi acrescido ao vocábulo feliz.
igualdade, em que o sufixo -dade foi acrescido ao vocábulo igual.
Derivação Prefixal e Sufixal:
Acréscimo de um prefixo e de um sufixo, em tempos diferentes; também chamado de prefixação e sufixação. Por exemplo:
infelizmente, em que o prefixo in- e o sufixo -mente foram acrescidos, em tempos diferentes, ao vocábulo feliz.
desigualdade, em que o prefixo des– e o sufixo -dade foram acrescidos, em tempos diferentes, ao vocábulo igual.
Serem acrescidos em tempos diferentes significa que houve a formação prefixal antes da sufixal, ou vice-versa. Se um deles for retirado, a palavra não perde o sentido: desigualdade - desigual e igualdade são formas existentes.
Derivação Parassintética:
Acréscimo de um prefixo e de um sufixo simultaneamente; também chamado de parassíntese. Por exemplo:
envernizar, em que o prefixo en– e o sufixo -ar foram acrescidos ao vocábulo verniz.
enrijecer, em que o prefixo en– e o sufixo -ecer foram acrescidos ao vocábulo rijo, que perdeu a vogal temática -o.
Observe que, na derivação parassintética, ambos os afixos foram colocados simultaneamente. Se um deles for retirado, a palavra perde o sentido: enrijecer - *enrijo, *rijecer: formas inexistentes
Derivação Regressiva:
É a retirada da parte final da palavra primitiva, obtendo, por essa redução, a palavra derivada com ou sem acréscimo de uma vogal temática. Por exemplo: do verbo debater, retira-se a desinência de infinitivo -r: formou-se o substantivo debate; do verbo trabalhar, retira-se a terminação verbal -ar e acrescenta-se a vogal temática -o: formou-se o substantivo trabalho; do verbo roubar, retira-se a terminação -ar e acrescenta-se a vogal temática -o: formou-se o substantivo roubo.
Se o substantivo for abstrato, será palavra derivada: venda é derivado de vender.
Se o substantivo for concreto, será palavra primitiva: telefone é primitivo em relação a telefonar.
Derivação Imprópria:
É a formação de uma nova palavra pela mudança de classe gramatical sem acréscimo ou retirada de elemento algum do radical, também chamada de conversão. Por exemplo: a palavra dez é um numeral, mas pode transformar-se em um adjetivo: Você é dez; a palavra porém é uma conjunção, mas pode se transformar em um substantivo: Sempre existe um porém; a palavra nossa é um pronome possessivo, mas pode se transformar em uma interjeição.
Composição
Formação de novas palavras a partir de dois ou mais radicais.
Composição por justaposição:
Na união, os radicais não sofrem alteração alguma em sua estrutura. Por exemplo: ao se unirem os radicais ponta e pé, obtém-se a palavra pontapé. O mesmo ocorre com mandachuva, passatempo, segunda-feira e matéria-prima.
Composição por aglutinação:
Na união, pelo menos um dos radicais sofre alteração em sua estrutura. Por exemplo: ao se unirem os radicais água e ardente, obtém-se a palavra aguardente, com o desaparecimento de um a. O mesmo acontece com embora (em boa hora) e planalto (plano alto).
Quando há a fusão de duas palavras, uma perdendo a parte final e outra perdendo a parte inicial, chama-se palavra-valise ou amálgama: portunhol (português e espanhol), showmício (show e comício), aborrecente (aborrecer e adolescente), brasiguaio (brasileiro e paraguaio), Fla-Flu (Flamengo e Fluminense), sapatênis (sapato e tênis), namorido (namorado e marido), infomercial (informação e comercial), nutracêutico (nutriente e farmacêutico).
Hibridismo:
É a formação de novas palavras a partir da união de radicais de idiomas diferentes. Por exemplo: automóvel (grego e latim), sociologia (latim e grego), televisão (grego e latim), burocracia (francês e grego), sambódromo (africano e grego), telepizza (grego e italiano), endovenoso (grego e português).
Onomatopeia:
Consiste em criar palavras, tentando imitar sons da natureza, dos animais, dos objetos ou do próprio homem ou sons repetidos. Por exemplo: zum-zum, cri-cri, tique-taque, pingue-pongue, blá-blá-blá.
Abreviação Vocabular:
Consiste na eliminação de um segmento da palavra, a fim de se obter uma forma mais curta. Por exemplo: de extraordinário ou extrafino forma-se extra; de telefone, fone; de senhor, seu; de exposição, expo; de otorrinolaringologista, otorrino; de inoxidável, inox; de José, Zé. Os elementos formados passam a ser tratados como autônomos. Então, na pluralização, obedece-se às regras da palavra primitiva.
Siglas:
As siglas são formadas pela combinação das letras iniciais de uma sequência de palavras que constitui um nome: Por exemplo: IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística); IPTU (Imposto Predial, Territorial e Urbano); CBF (Confederação Brasileira de Futebol).
As siglas escrevem-se com todas as letras maiúsculas, a não ser que haja mais de três letras e a sigla seja pronunciável sílaba por sílaba como ocorre com qualquer palavra. Por exemplo: Sesc, Detran.
Em geral, não são dicionarizadas. Algumas já são registradas em dicionários consagrados e são consideradas como palavras: aids, jipe, ibope, radar, laser, óvni.
O gênero deve ser o mesmo do primeiro termo: o SBT - o Sistema Brasileiro de Televisão / a CNBB - a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Segundo essa regra, o correto seria a DDD e a DDI. Contudo, o uso consagrou essas siglas como masculinas, fazendo a concordância com o nome da letra D e não com a palavra discagem.
Neologismo:
Uma palavra é formada por neologismo quando a palavra já existe, mas ganha um novo significado ou quando uma nova palavra é criada, com um novo conceito. Por exemplo, rede (internet), zebra (resultado inesperado), juridiquês (linguagem do Direito), prefeiturável (candidato a prefeito). São palavras não dicionarizadas. A partir do momento em que uma palavra é registrada em dicionários consagrados, deixa de ser um neologismo.
Por exemplo, se juntarmos girafa com camelo e zebra com elefante, podemos formar um neologismo: elezebra e zebrafante, giramelo e camerafa.
Se acrescentarmos um sufixo às palavras ofertório, oferenda e oferta, podemos formar um neologismo: ofertorial.
Estrangeirismo:
É a introdução de palavras de outros idiomas na língua portuguesa, muitas vezes incorporadas ao nosso léxico, através de adaptação ou tradução literal. Por exemplo: futebol, piquenique, turnê, uísque; shopping, show, lingerie, impeachment.
Quando há a tradução de uma palavra ou expressão estrangeira, chama-se decalque: controle remoto - de remote control, supermercado - de supermarket, cartão de crédito - de credit card, cachorro-quente - de hot dog, centroavante - de centerforward, lua de mel - de honeymoon, placa-mãe - de motherboard, Fórmula 1 - de Formula One.
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