Prof. Dílson Catarino - Pontuação

 Usos da vírgula


 


Emprego da vírgula no período simples:


Não se emprega a vírgula:


Entre o sujeito e o predicado:


– Um número grande de pais pediu o retorno das aulas.


Entre o verbo e o seu objeto direto ou indireto, entre o verbo de ligação e o predicativo e entre a locução verbal de voz passiva e o agente da passiva:


– Os alunos receberam as instruções adequadas.


– Todos os professores estão preparados!


.


Observação: Em alguns raros casos, quando o complemento é deslocado para o início da oração, pode ocorrer ambiguidade. Nesse caso, pode-se usar a vírgula para clareza de sentido. Por exemplo:


– Os criminosos os policiais mataram.


Não há clareza quanto a qual termo é o sujeito: Os policiais mataram os criminosos ou os criminosos mataram os policiais?


Há três maneiras de esclarecer:


Supondo que o termo “os policiais” seja o sujeito:


1- Usando a ordem direta: Os policiais mataram os criminosos.


2- Usando a preposição “a” antes do complemento: Aos criminosos os policiais mataram.


3- Usando vírgula para destacar o complemento deslocado: Os criminosos, os policiais mataram.


Entre o nome e o complemento nominal ou o adjunto adnominal:


– Estamos à procura de profissionais competentes.


– Todos os trabalhos dos alunos foram aprovados.


Quando o adjunto adverbial e o predicativo estiverem depois da estrutura SUJEITO-VERBO-COMPLEMENTO:


– Os homens aguardavam a chegada do socorro naquela tarde ansiosos.


.


Se, porém, o adjunto adverbial estiver no início da oração ou entre os termos dela, a vírgula será usada. Modernamente, porém, a vírgula é considerada opcional, principalmente se o adjunto adverbial for curto, ou seja, apenas um advérbio:


– Naquela tarde os homens aguardavam a chegada do socorro ansiosos.


– Naquela tarde, os homens aguardavam a chegada do socorro ansiosos.


.


Se o predicativo do sujeito estiver no início da oração ou entre os termos dela, a vírgula será usada:


– Ansiosos, os homens aguardavam a chegada do socorro naquela tarde.


– Os homens, ansiosos, aguardavam a chegada do socorro naquela tarde.


Nessa frase, se o adjetivo “ansiosos” não for isolado pelas vírgulas, haverá mudança sintática e semântica. Observe:


– Os homens, ansiosos, aguardavam a chegada do socorro naquela tarde.


A função sintática é a de predicativo do sujeito. Todos os homens que lá estavam esperavam a chegada do socorro e todos, sem exceção, estavam ansiosos. O adjetivo é explicativo.


– Os homens ansiosos aguardavam a chegada do socorro naquela tarde.


A função sintática é a de adjunto adnominal. Há homens ansiosos e homens tranquilos. Somente os homens ansiosos aguardavam a chegada do socorro. O adjetivo é restritivo.


 


Isso acontece quando o adjetivo estiver imediatamente depois do substantivo qualificado por ele.


Quando se trata de separar termos de uma mesma oração, deve-se usar a vírgula nos seguintes casos:


Para isolar adjuntos adverbiais deslocados:


 


– A maioria dos alunos, durante as férias, viajam.

Se o adjunto adverbial for representado por um advérbio ou por uma locução adverbial, a vírgula será opcional, principalmente se a oração for curta. Recomenda-se a vírgula em caso de ênfase:


– Ontem me encontrei com Flaviani.


– Ontem, encontrei-me com Flaviani.


Para separar elementos coordenados:


– O sofá, as poltronas, a mesa de centro e as cadeiras estavam desalinhados.


Para isolar os objetos pleonásticos e os anacolutos:


– Os meus amigos, sempre os respeito.


– Meu vizinho, ouvi dizer que ele está muito doente.


Para separar palavras ou expressões explicativas ou retificadoras como “além disso, aliás, a saber, assim, com efeito, de fato, na verdade, então, isto é, ou seja, por assim dizer, por exemplo, ou melhor, minto, na minha opinião, resumindo, quer dizer, a propósito, em outras palavras”


– Foi, de fato, um acontecimento importante.


Para isolar o aposto explicativo ou comparativo:


– Londrina, a quarta cidade do Sul do Brasil, é aprazibilíssima. / Os olhos do gato, faróis na escuridão, percorriam a mata à procura de alimento.

O aposto especificativo não é separado por vírgula: O escritor Carlos Drummond de Andrade foi homenageado no último projeto literário.

Quando o aposto é enumerativo, costumam ser usados os dois-pontos:

Viajamos por vários países: Brasil, Argentina, México, Colômbia e Equador.


Para isolar o vocativo, inclusive o vocativo de ofícios e cartas comerciais:


– Alberto, traga minhas anotações até aqui!


Para indicar a elipse do verbo (zeugma):


– Ela prefere filmes românticos; o namorado, de aventura. (o namorado prefere filmes de aventura)


Para separar, nas datas, o lugar, nos endereços, o número da rua e os integrantes dos dispositivos de lei:


 – Londrina, 1º de agosto de 2020. / Rua Raposo Tavares, 415. / Artigo 4, inciso 7.


Emprego da vírgula no período composto:


Período composto por coordenação:


Para separar orações intercaladas ou interferentes:


– Assim que puder, disse o rapaz, farei a reforma.


Para separar as orações coordenadas assindéticas:


– O aluno não participou da aula, não respondeu às questões, não trouxe o material…


 


Em alguns ambientes sintáticos, as orações coordenadas assindéticas podem ser separadas por ponto e vírgula


Para separar as orações coordenadas sindéticas adversativas, explicativas e conclusivas:


– Fez o que o pai pedira, mas apresentou muita má vontade.


– Estude, pois o conhecimento é essencial.


– É uma pessoa resoluta, portanto decide com rapidez.


.


A conjunção coordenativa conclusiva “pois” deve ficar entre vírgulas:


– É uma pessoa resoluta, pois, decide com rapidez.


– É uma pessoa resoluta. Decide, pois, com rapidez.


– É uma pessoa resoluta. Decide com rapidez, pois.


As conjunções coordenativas adversativas e conclusivas podem estar intercaladas. Se assim ocorrer, ficam entre vírgulas.


Podem, também, iniciar o período. Nesse caso, a vírgula será opcional.


Podem, enfim, finalizar o período. A vírgula é obrigatória.


 – A lei era clara. Os candidatos, porém, não a respeitaram.


– A lei era clara. Porém candidatos não a respeitaram.


– A lei era clara. Porém, candidatos não a respeitaram.


– A lei era clara. Os candidatos não a respeitaram, porém.


 


– Os alunos prepararam-se muito bem. Estão, portanto, prontos para o exame.


– Os alunos prepararam-se muito bem. Portanto estão prontos para o exame.


– Os alunos prepararam-se muito bem. Portanto, estão prontos para o exame.


– Os alunos prepararam-se muito bem. Estão prontos para o exame, portanto.


 


Emprega-se geralmente a vírgula antes da oração coordenada sindética aditiva iniciada pela conjunção e quando houver sujeitos diferentes ou quando houver a repetição enfática da conjunção (polissíndeto):


 – Ela irá no primeiro avião, e seus filhos, no próximo.


– Ele falava, e gritava, e pulava, e gesticulava, e se esperneava como um louco.


.


O emprego da vírgula antes de “e”, quando houver sujeitos diferentes não é obrigatória; é mais recomendada para evitar ambiguidade ou para anunciar uma pausa necessária ao contexto, ou seja, é mais estilística do que gramatical.


.


A conjunção “e” pode ser também adversativa:


– Ela aceitou as desculpas, e seus olhos prometiam vingança.


Nessa frase, a conjunção “e” tem o mesmo valor de “mas“, portanto há de haver a vírgula.


Nem … nem, não só … mas também, e sim, mas sim, não apenas … mas ainda, ou … ou,  ora … ora


Esses elementos são comumente marcados por vírgula.


– Nem os alunos, nem os professores estão contentes com a situação.


– Não diga que não está preparado, e sim que pode melhorar.


– Não só os pobres, mas os ricos também sofrem com a epidemia.


– Ou estou ficando surdo, ou você está falando baixo demais.


 


As orações coordenadas sindéticas alternativas não são separadas pela vírgula, a não ser que haja repetição da conjunção ou necessidade de pausa:


– Decida-se! Entre logo ou saia de uma vez!


– Ou entre, ou saia!


– Ora ri, ora chora.


– Quer queira, quer não queira, fará o que prometeu.


.Cuidado com orações subordinadas coordenadas entre si. Observe o seguinte:


.


– Ele disse que a irmã iria à missa e o irmão, ao futebol.


Nessa frase não há a vírgula antes de “e” porque as orações não são somente coordenadas, mas sim subordinadas coordenadas entre si. Analisemo-las:


O verbo dizer exige complemento sem preposição, pois “quem diz, diz algo”. Na frase apresentada, há dois complementos:


Ele disse …


… que a irmã iria à missa;


… que o irmão iria ao futebol


A frase completa, portanto é esta:


– Ele disse que a irmã iria à missa e que o irmão iria ao futebol.


Ocorre, porém, que a segunda conjunção integrante “que” foi retirada da frase. Em se acontecendo isso, não se separam as orações por vírgula.


A retirada do verbo para evitar sua repetição, o que é denominado de zeugma, exige a vírgula.


Período composto por subordinação:


Orações subordinadas substantivas: não se separam por vírgula. Afinal, sujeitos, complementos verbais e nominais e o predicativo nos predicados nominais se ligam diretamente ao termo ao qual se refere, sem pausa.


– É evidente que o culpado é o mordomo.

.


A oração subordinada substantiva apositiva comumente é separada da principal por dois-pontos, mas também pode vir separada por vírgula ou travessão, da mesma forma como acontece com o aposto:


– Sabe-se com certeza apenas uma coisa: que a morte acontecerá.


Orações subordinadas adjetivas: só a explicativa é separada por vírgula, travessão ou parênteses.


– Londrina, que é a quarta cidade do Sul do Brasil, é aprazibilíssima.


 


.


A oração subordinada adjetiva restritiva não é separada por vírgula, exceto se for muito longa ou se o verbo da oração principal estiver lado a lado:


– Os funcionários que entraram em greve são os que participavam do sindicato.


Orações subordinadas adverbiais: são separadas por vírgula se estiverem no início ou no meio do período. Se estiverem no final, pode-se usar a vírgula, principalmente se se quiser destacar a oração..


 – Assim que chegarem as encomendas, começaremos a trabalhar.

– Começaremos, assim que chegarem as encomendas, a trabalhar.

– Começaremos a trabalhar assim que chegarem as encomendas.


– Começaremos a trabalhar, assim que chegarem as encomendas.

Se a oração adverbial for consecutiva, não se usa vírgula: Sentia tanta dor que tive de ir para o hospital.


O emprego do ponto e vírgula depende muito do contexto em que ele aparece.


Podem-se seguir as seguintes orientações para empregar o ponto e vírgula:


 



Para separar duas orações coordenadas que já contenham vírgulas em seu interior ou quando a conjunção está implícita:


 


– Estive a pensar, durante toda a noite, em Diana, minha antiga namorada; no entanto, desde o último verão, estamos sem nos ver.

 


Para separar duas orações coordenadas, quando elas são longas:


 


– O diretor e a coordenadora já avisaram a todos os alunos que não serão permitidas brincadeiras durante o intervalo nos corredores; porém alguns alunos ignoram essa ordem.

 


Para separar enumeração após dois-pontos, pensamentos independentes e pensamentos opostos:


 


– Os alunos devem respeitar as seguintes regras:

Não fumar dentro do colégio;

Não fazer algazarras na hora do intervalo;

Respeitar os funcionários e os colegas;

Trazer sempre o material escolar.


Devem-se empregar os dois-pontos nos seguintes casos:


 



Para iniciar uma enumeração:


 


– Compramos para a casa o seguinte: mesa, cadeiras, tapetes e sofás.


 


Obs.: Para realizar a enumeração, a oração anterior aos dois-pontos tem de estar completa. Seria inadequado escrever o seguinte: Compramos para a casa: mesa, cadeiras…

 


Para introduzir a fala de uma personagem, exemplo, nota, observação, informação importante e vocativo inicial de ofícios e cartas comerciais:


 


– Sempre que o professor Luís entra em sala de aula diz a seguinte frase: 


 Bom dia, queridos alunos!

 


Para introduzir uma explicação, esclarecimento, resumo, aposto e oração apositiva:


 


– Bom dia, queridos alunos: essas são as palavras do professor Luís.


As reticências são empregadas nos seguintes casos:


 



Para indicar uma certa indecisão, surpresa ou dúvida na fala da personagem:


 


– João Antônio! Diga-me… você… me traiu?

 


Para indicar que, num diálogo, a fala de uma personagem foi interrompida pela fala da outra:


 


 Como todos já deram sua opinião…

 Um momento, presidente, ainda tenho um assunto a tratar.

 


Para indicar omissão de pensamento ou sugerir ao interlocutor que complete o raciocínio contido na frase:


 


– Durante o ano ficou claro que o aluno que não atingisse 150 pontos seria reprovado; você atingiu 145, portanto…

 


Para indicar, numa citação, que certos trechos do texto foram suprimidos:


 


“No momento em que a tia foi pagar a conta, Joana pegou o livro…” (Clarice Lispector)

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