Prof. Dílson Catarino - Vírgula
Muitos homens, preferem o caminho do dinheiro.
Que vírgula é essa? Aliás, qual é o raciocínio que você aplica na utilização desse sinal gráfico? É interessante, antes de compreender as regras básicas da vírgula, desmitificar um antigo conceito: o de que a vírgula indica somente a pausa na fala. Se pensarmos dessa maneira, o asmático virgulará de um jeito; o obeso e o atleta, de outros. Em verdade, a vírgula depende, além da pausa, do conhecimento da sintaxe das orações, isto é, da maneira como são construídas.
Diante disso você pergunta: "Mas tenho que saber toda aquela análise sintática que vi na escola?" Seria bastante oportuno, mas não é necessária a análise sintática completa. Somente alguns conceitos são fundamentais, os quais você conhecerá nas linhas que se seguem.
O principal conceito sintático que você deve conhecer é o sujeito: é o ser sobre o qual dizemos algo. Para achá-lo, basta perguntar Quem? a qualquer verbo. Quase todos os verbos têm um sujeito. Quando corrigimos um texto, temos de nos acostumar a perguntar Quem? a todos os verbos que escrevemos, a fim de identificar imediatamente cada sujeito. Peguemos a frase título:
Muitos homens, preferem o caminho do dinheiro.
Perguntemos ao verbo: Quem prefere? Sujeito: Muitos homens.
Está vendo? Agora você pode conhecer a primeira regra da vírgula:
Não separe o sujeito de seu verbo por vírgula!
Logo, a forma correta seria a seguinte:
Muitos homens preferem o caminho do dinheiro. (sem a vírgula divorciando o sujeito do verbo).
Outros exemplos:
O homem que estuda vive mais. (Quem vive mais? O homem que estuda é o sujeito; sem vírgula, portanto);
As mulheres choraram; os homens dançaram. (Quem chorou? As mulheres é o sujeito; sem vírgula, portanto; quem dançou? Os homens é o sujeito; sem vírgula, é claro); etc.
Quer dizer que nunca haverá vírgula entre o sujeito e o verbo?
Nunca diga nunca, porque a língua é dinâmica! Em alguns casos, é absolutamente permitido (mas opcional) meter a vírgula entre o sujeito e o verbo. Vamos pensar neste slogan:
"Colégio Maxi – quem faz, aprova."
Qual é o sujeito do verbo aprovar? Quem aprova? Quem faz… esse é o sujeito. Pela regra, teoricamente não poderíamos usar vírgula, não é verdade? Porém, ele termina em verbo, e logo após aparece outro verbo. Poderia haver uma confusão caso não houvesse a vírgula, pois o verbo posterior poderia ser complemento do anterior, mas não o é. Por isso, é recomendado o seu uso em caso de sujeito oracional (oração subordinada substantiva subjetiva): Quem faz, aprova.
E se os verbos das duas orações forem iguais? Neste caso, a vírgula é obrigatória: Quem deu, dará.
Quando o sujeito for muito extenso, também é lícita (permitida) a vírgula. Exemplo:
Aqueles três homens de ternos laranja que se encontram defronte ao mercado da esquina, parecem suspeitos.
Qual é o sujeito do verbo parecer? Quem parece? Aqueles três homens de terno laranja que se encontram defronte ao mercado da esquina… veja o tamanho da sucuri! Pode-se usar a vírgula, quando o sujeito for extenso!
Antes do e, nunca haverá vírgula, certo?
Erradíssimo! Estamos habituados a nunca pôr a vírgula antes da conjunção e, mas existem casos (bastante comuns, por sinal) em que ela deve existir.
– Muitos sofreram, e poucos ganharam.
Nesse caso, a vírgula é perfeita. Por quê? Porque o e introduz uma oração de sujeito diferente do da anterior. Observe que, nessa frase, há dois verbos; logo, dois sujeitos: quem sofreu? Muitos é o primeiro sujeito; quem ganhou? Poucos é o segundo sujeito. Viu só? A segunda oração tem outro sujeito, diferente do da outra. A regra diz que, quando houver dois verbos com sujeitos diferentes, as orações devem ser separadas por vírgula. Outros exemplos:
– Há muitos problemas neste país, e temos que nos esforçar para mudá-lo. (quem há? O verbo haver no sentido de existir não tem sujeito; quem tem que se esforçar? Nós é o sujeito);
– ONU oferece ajuda, e Brasil recusa. (quem oferece ajuda? ONU é o sujeito; quem recusa? Brasil é o sujeito);
– Inúmeras pessoas só cantam e dançam nas férias. (nessa frase, não caberia a vírgula antes do e, já que os dois verbos – cantar e dançar – compartilham o mesmo sujeito. Quem canta? Inúmeras pessoas; quem dança? Inúmeras pessoas).
Há outra situação em que a vírgula antes do e é obrigatória. Para entendê-la, voltemos ao conceito de conjunção: elemento que liga orações ou termos da oração. Repare neste exemplo:
– Floriano, muito cansado da viagem, e sua esposa deitaram cedo. O termo muito cansado da viagem está atribuindo uma qualificação a Floriano e vem isolado por duas vírgulas. Veja que as vírgulas isolam esse termo. Obrigatoriamente deve haver duas vírgulas. Ou duas, ou nenhuma… Quê? Não entendeu o que é um termo isolado? Veja este outro exemplo, para o qual lhe forneceremos uma regra prática:
– As roupas, sujas como pau de poleiro, e a barba por fazer denunciavam-lhe a algazarra noturna. A vírgula antes do e faz par com a antes de sujas. Elas isolam o termo sujas como pau de poleiro. Tanto isso é verdade que, se eliminarmos o termo isolado, a frase continuará a ter sentido: As roupas e a barba por fazer (…). Viu? Os termos isolados podem ser retirados da frase… legal, né?
A terceira possibilidade de se colocar vírgula antes da conjunção e é quando ocorre uma figura de linguagem que denominamos de polissíndeto, cujo significado é “muitas conjunções”. Haverá vírgula antes do e quando várias orações subsequentes são encabeçadas por essa conjunção. Observe o seguinte exemplo:
– Ela ria, e gritava, e pulava, e se debatia, e esperneava…
E, finalmente, a última possibilidade de se colocar vírgula antes da conjunção e é quando esta conjunção tiver valor adversativo, ou seja, quando tiver valor de mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante.
– Estudei mais que meus amigos, e fui o único a não conseguir a aprovação.
Oi Fernando?
Essa frase está certa?
Não! Esse Fernando é, segundo a Gramática, um vocativo, termo que serve para invocar, chamar, pedir a presença de qualquer ente, real ou imaginário. E, por ser um vocativo, deve ser isolado por vírgula(s). Sempre! Logo,
Oi, Fernando?
Com vírgula! Um detalhe: se o vocativo estiver acompanhado da interjeição ó (de chamamento), que não se confunde com a interjeição oh (de espanto), os dois serão isolados. Exemplos:
– Ó Maria, será que não me vês?
Isto é, ou seja, ou melhor, por exemplo, aliás, digo… isso vem entre vírgulas?
Quando essas expressões introduzem uma explicação, costuma-se isolá-las por vírgulas. Exemplos:
– Renata mostrou-lhe a vida, isto é, a maneira certa de viver;
– Resolvi mudar de vida, ou seja, parar de fumar;
Se houver a intenção de reforçar a pausa antes de tais expressões, pode-se usar o ponto e vírgula antes:
– Renata mostrou-lhe a vida; isto é, a maneira certa de viver.
Tanto ele, quanto ela são meus amigos… essa vírgula existe?
Claro que não! Vamos pensar um pouco nessa frase? Você usou um verbo (são), que, provavelmente, tem um sujeito. Vamos achá-lo: quem são meus amigos? Tanto ele quanto ela. Eis o sujeito. Observe que, na verdade, há dois sujeitos: ele e ela. Eles são ligados por estruturas correlativas (Tanto … como), caso em que a vírgula é absolutamente desnecessária. Veja alguns exemplos:
– Tanto ele quanto ela são meus amigos;
– Não só Carlos mas também João vieram à festa;
– Tanto eu como meu primo fomos prejudicados.
Antes de e sim se usa a vírgula?
Certamente. A expressão e sim, que introduz uma ideia contrária, uma correção da anterior, deve ser precedida de vírgula. Entretanto, não se deve isolar o sim com vírgulas. Use somente uma, antes do e sim. A regra também vale para e não e mas sim. Exemplos:
– Ele não fez as tarefas de que foi incumbido, e sim as que ele quis;
– Ela quis agradar-me, e não ofender-me.
Em se tratando de mas sim, pode-se isolar o sim com vírgulas:
– Ele não fez as tarefas de que foi incumbido, mas sim as que ele quis.
– Ele não fez as tarefas de que foi incumbido, mas, sim, as que ele quis.
Quer saber por que o sim, nesse caso, pode ser isolado? É porque o mas por si só já tem valor adversativo (que introduz ideias contrárias). Por isso, o sim pode funcionar como mero reforço, equivalendo a isso sim.
– Ele não fez as tarefas de que foi incumbido, mas, isso sim, as que ele quis.
E a vírgula antes de como?
Observemos estas duas frases:
– Elas gostam de artistas como Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso.
– Elas gostam de vários artistas, como Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Notou que antes do segundo como há vírgula? Pois é, e por que essa injustiça? Bem, é que o primeiro como introduz uma oração comparativa (que estabelece uma comparação):
– Elas gostam de artistas (que sejam) como (é) Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Logo, não se usa a vírgula. No segundo caso, o como introduz uma enumeração, isto é, palavras que enumeram e exemplificam o que acabou de ser dito. E perceba que o nome antes do como veio determinado por uma palavra (vários, no caso). Isso é muito comum quando em seguida vem uma enumeração:
– Elas gostam de vários artistas, como (por exemplo) Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Notou a diferença? Fique atento à intenção do como. Se ele introduzir uma enumeração (exemplos), a vírgula é necessária, em razão da pausa que se faz na fala. Em se tratando de comparações, não.
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