Iniciativa promoverá orientações e demonstrações práticas voltadas à autoproteção da mulher
“A violência não começa com um soco”. Com esse foco de prevenção e conscientização, foi lançada nesta sexta-feira (26), na Arena Unifacisa, em Campina Grande, a parceria entre o programa Antes que Aconteça e os especialistas em defesa pessoal feminina Kyra Gracie e Malvino Salvador.
A iniciativa, que vai levar informação e capacitação em autoproteção para mulheres de sete municípios paraibanos (Campina, Monteiro, Bananeiras, João Pessoa, Cajazeiras, Patos e Sousa), fortalece as ações de combate à violência de gênero desenvolvidas em todo o estado.
O evento que marcou o início do projeto reuniu centenas de pessoas entre autoridades, agentes de segurança e público em geral. Na ocasião, a coordenadora nacional do Antes que Aconteça, senadora Daniella Ribeiro, destacou que a parceria era um marco para ampliar mais um eixo do programa, que é o do empoderamento e da defesa pessoal.
“Extremamente importante trazer duas figuras de renome nacional e por que não dizer internacional para se unirem ao Antes que Aconteça em um projeto de defesa pessoal feminina. O trabalho que Kyra e Malvino realizam tem uma utilidade social tão grande que o Antes que Aconteça não poderia deixar de buscar essa parceria”, afirmou a senadora.
Ela também agradeceu a todos que têm contribuído com as ações do programa, que incluem orientações nas escolas, nas comunidades, implantação de Salas Lilás – entre outras atividades. Já durante o lançamento na Unifacisa, os presentes puderam receber uma capacitação gratuita, com certificado da Academia de Polícia Civil da Paraíba (Acadepol), conduzida pelos especialistas Kyra e Malvino – que repassaram orientações e demonstrações práticas sobre como evitar e romper o ciclo da violência.
Na oportunidade, o casal com larga experiência em defesa pessoal pontuou a finalidade dessa iniciativa conjunta. “O projeto tem como principal objetivo trabalhar a autoconfiança e autoestima da mulher, que ela entenda que pode confiar em si mesma, se dar o valor pra não deixar ninguém maltratá-la nem colocá-la para baixo”, explicou a multicampeã mundial de jiu-jitsu, Kyra Gracie, ao frisar que a violência não começa com um soco, mas com outras atitudes, como palavras que configuram violência psicológica.
“Quando a gente trabalha a autoestima e autoconfiança, a mulher começa a olhar de uma forma diferente para situações e fala, ‘opa peraí’, eu não mereço isso, eu não aceito isso, eu vou sair desse tipo de relação e muitas vezes o que a gente quer é que ela se antecipe e não entre em um relacionamento abusivo”, completou a especialista, lembrando que o enfrentamento à violência contra a mulher também passa pela conscientização dos homens.
Nesse sentido, o marido de Kyra, o ator, empresário e faixa preta de jiu-jitsu Malvino Salvador, soma seus conhecimentos e experiências a esse trabalho, falando e demonstrando situações práticas de violência que dialogam diretamente com o público masculino. “Meu papel aqui enquanto homem é trazer a conversa para eles, que muitas vezes não dão ouvidos a uma mulher falando”, disse, ao detalhar uma das situações que motivou o casal a usar a visibilidade e a capacidade técnica que possui para atuar nessa temática.
“Uma aluna da nossa academia participou de uma aula de defesa pessoal e, ao final, chorou muito. Quando conversaram com ela, a aluna disse: ‘Se eu tivesse tido essa aula 15 anos atrás, eu não teria sido estuprada’. Então, a defesa pessoal é mais do que as técnicas, é a antecipação, é a consciência que você tem sobre os aspectos de como essa violência começa, para não deixar que ela chegue na culminância da agressão física”, declarou Malvino, ressaltando que os sinais vão aparecendo aos poucos e a intenção é que a vítima perceba antes de precisar sair de um cenário de maior perigo que possa resultar até em um feminicídio.
Parcerias – O lançamento do projeto contou com o apoio da Fundação Pedro Américo, Unifacisa e Unifit, além do Ministério da Justiça e Segurança Pública e do Governo da Paraíba. Na oportunidade, em Campina Grande, a presidente da Fundação Pedro Américo, Bianca Gadelha, comentou como os propósitos do Antes que Aconteça e da instituição se interligam.
“Faz parte da Fundação a crença de que só a educação transforma. O projeto Antes que Aconteça tem exatamente essa proposta: educar cada vez mais mulheres e toda a sociedade para que a gente mude essa realidade e a violência não aconteça”, afirmou. A coordenadora de projetos sociais da Fundação, Paula Gadelha, completou, ao citar que a parceria reforça a atuação da instituição junto a públicos em situação de vulnerabilidade.
“Essa parceria com o Antes que Aconteça fortalece ações que já desenvolvemos para apoiar mulheres a recomeçarem suas vidas e recuperarem sua autoestima”, detalhou. Ainda segundo Paula, a Fundação Pedro Américo, integrante do ecossistema Unifacisa, continuará contribuindo no decorrer do projeto, disponibilizando sua estrutura para receber as capacitações e os profissionais envolvidos nas atividades de orientação e defesa pessoal.
Projeto contará com participação das forças de segurança nos municípios contemplados
As ações do projeto de defesa pessoal feminina lançado pelo programa Antes que Aconteça contarão com a contribuição das forças de segurança pública nos sete municípios contemplados nesta primeira etapa: Campina Grande, Monteiro, Bananeiras, João Pessoa, Cajazeiras, Patos e Sousa. Além das palestras e demonstrações práticas de autoproteção, conduzidas pelos especialistas Kyra Gracie e Malvino Salvador, os encontros levarão conhecimento sobre a rede de proteção para mulheres em situação de violência.
A informação é da coordenadora das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher da Paraíba (Coordeam), Sileide Azevedo. Conforme a delegada, “essas palestras integram também as ações da segurança pública voltadas ao enfrentamento das múltiplas formas de violência contra a mulher. Assim, em todos os municípios teremos representantes da Polícia Civil, levando informações sobre os espaços onde essa mulher pode pedir ajuda, denunciar as violências sofridas e ter acesso à proteção. É uma forma de fortalecer essa comunicação e essa proximidade com a sociedade, para que possamos chegar a mais mulheres e ajudá-las a viver uma vida sem violência”.
O secretário de Estado da Segurança e Defesa Social, Jean Nunes, também participou do lançamento do projeto e reforçou os resultados da parceria com o Antes que Aconteça, que tem na Paraíba o estado pioneiro no desenvolvimento de mobilizações. “Reduzimos em quase 40% o número de feminicídios de janeiro a maio deste ano, em relação ao mesmo período de 2005. O ideal é que não precisássemos ter ações como essa para conscientizar, mas é necessário que tenhamos, pois temos uma sociedade extremamente machista. Por isso, a gente precisa adotar essa postura preventiva e enérgica”, concluiu.

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