Paraibano Ariano Suassuna é declarado Patrono da Cultura do Recife

Nascido na Paraíba e marcado desde a infância pelas manifestações populares do Sertão, o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna foi declarado oficialmente Patrono da Cultura do Recife. A lei que concede o título foi sancionada na quinta-feira (24) pelo prefeito da capital pernambucana, Victor Marques.



A homenagem teve origem no Projeto de Lei Ordinária nº 262/2026, apresentado pelo vereador Rinaldo Júnior e aprovado pela Câmara Municipal do Recife em setembro. O texto reconhece a contribuição de Suassuna para a preservação e difusão da cultura popular e sua relação com a cidade onde desenvolveu grande parte da trajetória intelectual e artística.

Embora sua vida adulta tenha se confundido com a história cultural pernambucana, a formação de Ariano começou do outro lado da divisa. Ele nasceu em 16 de junho de 1927, na então Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, e passou parte decisiva da infância no interior da Paraíba.

De João Pessoa ao Sertão
Ariano era filho de João Suassuna, que presidiu a Paraíba entre 1924 e 1928, função equivalente à de governador atualmente.

Depois que o pai deixou o governo, a família seguiu para a Fazenda Acauhan, então localizada no município de Sousa. O lugar hoje pertence ao município de Aparecida, no Sertão paraibano, e foi cenário dos primeiros anos de Ariano ao lado do pai.

A morte de João Suassuna, assassinado no Rio de Janeiro em 1930 em meio aos conflitos políticos daquele período, modificou a trajetória da família. Anos depois, Ariano se estabeleceu com a mãe e os irmãos em Taperoá, onde viveu entre 1933 e 1937.

Foi justamente em Taperoá que surgiram algumas das experiências que mais tarde apareceriam transformadas em literatura e teatro.

Segundo a Academia Brasileira de Letras, Ariano assistiu na cidade pela primeira vez a um espetáculo de mamulengos e a um desafio de viola. A improvisação e outras formas da cultura popular que conheceu naquele período se tornariam referências recorrentes de sua produção artística.

Taperoá deixou marcas na obra
O universo sertanejo não permaneceu apenas como memória de infância.

Personagens, paisagens, religiosidade, oralidade, humor, desafios, cantadores e histórias populares do interior nordestino atravessaram a produção de Suassuna.

Em 1950, depois de concluir Direito no Recife, o escritor voltou temporariamente a Taperoá para tratar uma doença pulmonar. Foi lá que escreveu e montou, no ano seguinte, a peça Torturas de um Coração.

A própria Fazenda Acauhan também seria recriada literariamente. Estudos e registros sobre a obra apontam correspondências entre o espaço da infância e cenários de Romance d’A Pedra do Reino, publicado em 1971.

A ligação institucional com o estado continuou décadas depois. Ariano integrou a Academia Paraibana de Letras, onde assumiu a cadeira nº 35 em 2000.

Recife virou sua casa a partir da juventude
A mudança definitiva na trajetória artística ocorreu quando a família foi para o Recife, em 1942.

Na capital pernambucana, Ariano concluiu os estudos secundários e entrou na Faculdade de Direito. Foi durante a universidade que conheceu Hermilo Borba Filho e participou da criação do Teatro do Estudante de Pernambuco.

Em 1947 escreveu sua primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol. Vieram depois obras como O Santo e a Porca, A Pena e a Lei e aquela que se tornaria sua criação mais conhecida, Auto da Compadecida, escrita em 1955.

Foi também no Recife que Suassuna lançou, em 18 de outubro de 1970, o Movimento Armorial, proposta artística que procurava aproximar formas eruditas de criação das manifestações tradicionais da cultura popular nordestina.

Ariano ainda foi professor da Universidade Federal de Pernambuco e ocupou funções públicas na área cultural. Morreu no Recife em 23 de julho de 2014, aos 87 anos.

Título municipal se soma a reconhecimento de Pernambuco
O novo reconhecimento do Recife não é o primeiro título de patrono concedido a Ariano em Pernambuco.

Desde 2020, a Lei Estadual nº 17.051 estabelece oficialmente Suassuna como Patrono da Cultura do Estado de Pernambuco.

Agora, uma legislação municipal também o estabelece como Patrono da Cultura do Recife.

A proposta foi aprovada em primeira e segunda discussões pela Câmara Municipal em 15 de setembro e posteriormente encaminhada para sanção. A lei foi sancionada no dia 24.

A homenagem ocorre ainda às vésperas de uma data simbólica: em 16 de junho de 2027 serão celebrados os 100 anos do nascimento do escritor. A Prefeitura do Recife já relaciona o novo título às homenagens previstas para o centenário.

Assim, o escritor que nasceu em João Pessoa, descobriu em Taperoá o mamulengo e os desafios de viola e levou essas referências consigo para o Recife passa a ocupar também, por lei municipal, o posto de Patrono da Cultura da cidade onde consolidou sua produção artística.


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