Glúten e lactose inflamam? Médico explica quando restringir faz sentido
O glúten e a lactose viraram, para muita gente, sinônimo de “inflamação” e de alimentação mais saudável quando são retirados do cardápio. A popularização de rótulos “sem glúten” e “sem lactose”, impulsionada por redes sociais e por tendências de dieta, tem levado a autodiagnósticos e restrições sem necessidade.
O clínico geral Alfredo Salim afirma que a ciência não sustenta a ideia de que esses componentes sejam vilões universais. “Generalizar que glúten e lactose inflamam todo mundo não tem respaldo científico”, destaca.
Na prática, a retirada desses alimentos costuma aparecer no consultório como tentativa de aliviar desconfortos digestivos, como estufamento e gases. O problema, segundo o médico, é transformar uma percepção individual em certeza de doença — ou em regra para toda a população.
Quando o glúten pode causar inflamação
Há situações em que o glúten, de fato, desencadeia inflamação e precisa ser eliminado. A principal delas é a doença celíaca, uma condição crônica em que a ingestão de glúten provoca uma reação imunológica em pessoas geneticamente predispostas.
Nesse cenário, o consumo de glúten (presente principalmente em trigo, centeio e cevada) pode inflamar e lesar a mucosa do intestino delgado, comprometendo estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes. “Para quem tem doença celíaca, tirar o glúten não é moda: é tratamento e deve ser permanente”, explica Salim.
O especialista ressalta, porém, que esse mecanismo não pode ser extrapolado para todos. Em pessoas saudáveis, não há evidência consistente de que o glúten cause inflamação.
Além da doença celíaca, existem outras condições ligadas ao trigo, como a alergia ao trigo e a chamada sensibilidade ao glúten ou ao trigo não celíaca. Nesses casos, a explicação pode ser mais complexa: outros componentes do trigo, como os frutanos, podem estar associados aos sintomas. Por isso, a afirmação “glúten inflama” é considerada simplificadora demais.
O que acontece na intolerância à lactose
Com a lactose, o processo é diferente. A lactose é o açúcar natural do leite e precisa de uma enzima chamada lactase para ser digerida. Quando há deficiência dessa enzima, parte da lactose não é absorvida no intestino delgado, chega ao intestino grosso e é fermentada por bactérias.
Isso pode causar sintomas como gases, distensão abdominal, cólicas e diarreia — um quadro conhecido como intolerância à lactose. “Intolerância à lactose não é sinônimo de inflamação causada pelo leite”, afirma o médico.
Outra confusão comum é acreditar que a intolerância signifique cortar completamente o leite e os derivados. O grau de tolerância varia, e muitas pessoas conseguem consumir certas quantidades sem apresentar sintomas.
Foto: Freepik.
Por que melhorar ao cortar não prova diagnóstico
Um argumento frequente é: ao retirar pão, massas, leite e derivados, a pessoa se sente melhor — e conclui que o glúten ou a lactose eram os responsáveis. Salim alerta que essa melhora pode ocorrer por vários motivos ao mesmo tempo.
Ao cortar esses itens, muita gente reduz também ultraprocessados, excesso de açúcar, gorduras, calorias e até carboidratos fermentáveis, o que pode diminuir a sensação de inchaço e desconforto. “Sentir melhora não significa, automaticamente, que exista intolerância ou que aquele alimento esteja ‘inflamando’ o organismo”, destaca.
Sem glúten não é sinônimo de saudável
Outro ponto é a leitura dos rótulos. Um produto “sem glúten” pode continuar sendo ultraprocessado e rico em açúcar, gordura e calorias. Ou seja, a ausência de glúten não transforma, por si só, um alimento em opção mais nutritiva.
O mesmo vale para o corte de leite e derivados: sem necessidade e sem substituições adequadas, a restrição pode reduzir a ingestão de nutrientes importantes e tornar a alimentação mais cara e difícil de manter.
Há ainda um cuidado específico para quem suspeita de doença celíaca. O médico alerta que retirar o glúten por conta própria antes da investigação pode atrapalhar os exames e dificultar o diagnóstico. “Em medicina, o diagnóstico precisa vir antes da restrição”, afirma.
No fim, a recomendação é evitar decisões baseadas em modismos. Para Salim, a pergunta central deve ser objetiva: há evidência de que aquele alimento realmente está fazendo mal? “Evidência deve vir antes do folclore”, resume.
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